Por trás do insufilme que ninguém vê, Melgarejo é porteiro do Fórum há mais de 20 anos

"Minha história é muito simples. Sempre busquei ser honesto e idôneo com as pessoas", conta o servidor José Gregório Melgarejo, que há 19 anos cumpre seu expediente como porteiro na guarita de acesso aos veículos dos magistrados e do estacionamento de veículos oficiais no prédio do Fórum de Campo Grande. De Judiciário ele soma 30 anos de atividade e, cuidando do estacionamento, são mais de 20.

Foi desempenhando a mesma função na portaria de um condomínio onde tinha poucas folgas e já casado que ele prestou concurso para o cargo de zelador na comarca de Campo Grande. As provas foram na Escola Joaquim Murtinho, em 1988. Aprovado em 3º lugar, tomou posse em fevereiro de 1991, quando ficou responsável pela limpeza de um setor. O trabalho era dividido com outros zeladores e cada um limpava uma parte do prédio do Fórum, que funcionava ainda na Avenida Fernando Correa da Costa.

Com a chegada da equipe terceirizada, ele foi trabalhar no subsolo para cuidar do acesso ao estacionamento e das vagas dos juízes, promotores e defensores. Trabalhava sozinho e o portão era aberto, não tinha muita segurança e a entrada da garagem era fechada apenas por uma corrente, recorda. Mas os tempos eram mais calmos e ele não teve nenhuma intercorrência de segurança enquanto esteve por lá.

O único episódio foi, na verdade, sobre um rapaz que fazia segurança para um magistrado e estacionava seu Chevette na vaga do juiz. "E o pessoal tinha receio de abordar ele. Mas eu cumpri a norma e então ele quis me agredir".

Quando da mudança para o atual prédio, no ano de 2002, ele assumiu o posto na guarita, agora com mais proteção, onde cumpre seu expediente até hoje. "No antigo prédio eu tinha mais contato com o público, com os magistrados, defensores e promotores. Hoje, ficamos eu e o segurança, e o insufilm impede as pessoas de me verem. O acesso dos juízes é por controle, eu verifico a identificação do veículo e libero o portão. Se o automóvel não está identificado, eu barro a passagem e converso para ver de quem se trata. Mas é tranquilo, fora alguns desavisados que querem entrar achando que o estacionamento é aberto, principalmente nos dias de chuva".

Sobre sua função, ele diz que não tem do que reclamar, pelo contrário, adora. "Eu não estudei muito, então não tentei mudar de setor. Mas eu gosto de trabalhar aqui, tanto que hoje meu filho trabalha na terceirizada do Fórum, como eletricista, e minha ex-mulher trabalha na terceirizada de limpeza".

E enaltece: "sou muito grato ao Judiciário. Foi com meu salário e o complemento da minha ex-mulher na terceirizada que adquiri tudo que tenho, comprei casa, moto e criei meus filhos. Hoje, minha filha mora na minha casa com sua família e eu num condomínio, de outro imóvel que consegui adquirir. Estou pagando parcelado, tudo graças ao meu salário daqui".

Dos momentos marcantes em sua trajetória, ele aponta um caso no antigo prédio do Fórum, uma operação que culminou com a prisão de diversos policiais e ele estava trabalhando no dia do julgamento. "Eram muitos policiais presos. Um pessoal do DOF envolvido em corrupção".

Outro fato memorável já no prédio atual foi o dia do julgamento de Fernandinho Beira-Mar, ano de 2009, cercado de policiais. "Eu levei sorte que fiquei aqui dentro da guarita, de colete e tinha vários policiais na parte de fora. Mas o coitado de um porteiro colega meu estava trabalhando comigo e ficou para fora, com colete. Eu disse para ele, pode ir que eu fico daqui de dentro coordenando. Eu gostei da movimentação, foi diferente, um caso de renome, e todo aquele aparato policial".

Mas no dia a dia a vida de Melgarejo é aquela rotina do serviço para casa, conta o servidor. "Acordo cedo, tomo meu café e venho. Moro sozinho, vou na igreja e sou apegado muito a minha filha. Visito muito ela, meu filho também. Agora é esperar mais um ano para aposentar. Daí vou visitar meus parentes em São Paulo, viajar, eu nunca fui lá".